terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Crianças e borboletas

“Havia uma borboleta que voava com asas cansadas pelo prado. A fina garoa molhara sua veste colorida. Sentindo suas asas pesadas pousou sobre o gramado.
Logo notou que suas asas haviam se danificado e por mais de uma vez tentou alçar vôo, contudo, sem sucesso. Mais tarde, foi até uma plantinha de folhas largas e debaixo dela depositou alguns ovinhos bem pequenos e branquinhos.
Ela então dobrou suas asas e calmamente ficou sentada ali, sonhando com flores e raios de Sol. Logo veio a chuva e a borboleta morreu com o vento frio da noite.
Os pequenos ovos da borboleta foram bem cuidados no coração quente da Mãe-Terra. De dia o Sol lhes enviava calor e à noite, o calor da Terra os envolvia. A folha larga os protegia da chuva. A luz da velha borboleta havia se apagado, porém em cada um de seus ovos brilhava uma faísca de vida. Depois de alguns dias, algo começou a se mexer dentro dos ovos, e um raio de Sol, percebendo a nova vida, chamou: - “Venha para fora, venha para fora”... O ovinho se mexeu, a pele rasgou e de dentro saiu uma lagarta, amarelinha, de pele sedosa e pintinhas escuras. Arrastou-se até a folha larga, que se tornou seu jardim, mesa e casa. Ela gostou do sabor das bordas da folha, e após esburacá-la o Sol cantou: - “Continue a ir pelo mundo verde”. E assim, a lagarta rastejou de folha em folha, e depois de uma semana já era uma lagarta grande, com pelinhos nas costas.
O verão deu lugar ao frescor do outono, e então o raio de Sol disse: - “Procure um lugar quieto, um quartinho para descansar”.
Entre pedras e folhas, vagarosa, ela desceu ao aconchego da Mãe-Terra. Assustada com a escuridão, cochichou: - “Mãe-Terra, acolhei-me, o Sol me mandou abandonar o mundo verde”. E bem do fundo surgiu uma voz: - “Não fique triste de ter perdido o mundo verde, minha filha, o raio de Sol lhe deu um bom conselho. Fique comigo, tire sua veste que é velha e encolhida. Durma, pois as fadas querem tecer um lindo sonho para você”.
Ao abandonar suas vestes, ela teve uma sensação estranha, sua pele endurecera. Ela se sentiu presa, sufocada e tentou chamar: - “Socorro, estou morrendo”. Mas já havia caído num sono profundo como a Morte, e sua pele se tornou um caixão duro.
Enquanto dormia seu sonho profundo, a lagarta não viu a passagem do inverno, nem tampouco o milagre que aconteceu no seu casulo. Com mãos misteriosas, as fadas teceram uma veste celestial no túmulo escuro, usando o brilho das estrelas e as cores do arco-íris nos delicados fios da nova roupa. Com a primavera, a Terra esquentou, as flores desabrocharam e o casulo se abriu na Terra, e do túmulo acordou uma borboleta.
Ela saiu em direção da luz, e ouviu um canto: - “Venha conosco”. Era o canto das flores. Elas pediam ao Sol: - “Oh, Sol, como gostaríamos de voar e criar um jardim celestial entre seus raios”. Então, respondeu o raio de Sol: - “Vou viajar pelos mares e terra. Esperem por meu pássaro, e ele lhes contará sobre as estrelas e o arco-íris”.
Neste momento, a borboleta se levantou, voou até as flores e se tornou a sua mais querida irmã”.
Não é fantástica a imagem das borboletas que se desprendem do casulo seco, abrem suas belas asas, delicadamente trabalhadas, e numa dança louca de cores, envolvem o mundo das flores, que parecem suas irmãs, porém presas pelas raízes ao solo da Terra?
Esta imagem nos ajuda a expressar o que acontece com o espírito, a personalidade. Presa num corpo que precisa alimentar-se - “a lagarta” - e que envolve e encobre tudo que a forma - “o casulo” - ela deve escolher as cores e preparar as asas neste mundo escuro da matéria, da civilização, da insegurança, da competição, para um vôo colorido, ao encontro do que floresce.
Assim como na formação dos casulos e das asas da borboleta, as forças cósmicas atuam também nas fases evolutivas do ser humano em formação. E, assim, como o meio ambiente oferece as condições adequadas para que as plantas floresçam e dêem frutos - ofertando a água, o ar,... -, também o meio ambiente humano, a educação, deve oferecer condições para que a “borboleta pessoa” tenha chance para que suas coloridas asas brilhem.
A criança traz consigo muitas cores, fantasias, espontaneidade, alegria e uma confiança imensurável no mundo e em nós. À medida que cresce, ela perde a confiança, cria medos, vergonhas, inseguranças. Começa a mentir, se encher de guloseimas, isola-se dos outros e, por vezes, desgasta-se durante a vida.
Como devemos agir?

Devemos descobrir as dores, lesões, que existem no íntimo da alma, e encontrar as medidas e os remédios.
Iniciar ou reforçar a nossa auto-educação; limpar as nossas asas coloridas!
"LIMPE SUAS ASAS COLORIDAS E DEPOIS ESTEJA PRONTA PARA UM VOÔ COLORIDO"
Tentando alegrar um pouco uma pessoa que sei que sempre posso contar pra tudo até pra tomar sorvete e depois cerveja.. rsrsrs!!! :)

(Adaptação de dois artigos editados na revista Chão e Gente (nº 11 e nº 12) de Leonore Bertalot, suíça de origem e brasileira naturalizada, pedagoga formada em estudos antroposóficos na Inglaterra e ex-orientadora da Escola Waldorf João Guimarães Rosa.)

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