sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Releituras

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo.
E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo.
Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Do desejo - Hilda Hilst

Break

Já aguentei isso ao máximo,
Não sou anjo e nem demônio.
Tenho que me livrar de culpas,
dos medos, das angustias.
Quero quebrar as amarras,
Destrui o "nada" que me atormenta a noite
Que não me deixa gritar
Preciso de uma chance para quebrar,
Espancar,destruir.
Sem perdão!
Depois de tudo conseguir me recompor!!


I'll break

I can,I know!!!!

Releituras

É para lá que eu vou



Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero.
E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra.
Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando.
À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim.
É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe.
Depois de morta é para a realidade que vou.
Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real.
E a alma livre procura um canto para se acomodar.
Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando.
Estou falando de nada. Eu sou nada.
Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão.
Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto.
Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes.
Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros.
Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu.
Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta.
A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento.
O morro dos ventos uivantes me chama.
Vou, bruxa que sou. E me transmuto
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo?
Eu estou à beira de meu corpo.
E feneço lentamente.Que estou eu a dizer?

Onde estivestes de noite [Clarice Lispector]

Releituras

Às seis horas da manhã, a mulher entra no mar: este, o mais ininteligível das existências não humanas; ela, o mais ininteligível dos seres vivos.
Ela vai entrando, cumprindo uma coragem.
Avançando, abre o mar pelo meio.
Ela brinca com a água.
Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes.
“E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
Agora ela está toda igual a si mesma.”
Mergulha de novo, de novo bebe mais água.
Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, não recebe transmissões.
Depois caminha na água e volta à praia.
Agora, pisa na areia.
“E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago.
Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.”

[Clarice Lispector]