Às seis horas da manhã, a mulher entra no mar: este, o mais ininteligível das existências não humanas; ela, o mais ininteligível dos seres vivos.
Ela vai entrando, cumprindo uma coragem.
Avançando, abre o mar pelo meio.
Ela brinca com a água.
Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes.
“E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
Agora ela está toda igual a si mesma.”
Mergulha de novo, de novo bebe mais água.
Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, não recebe transmissões.
Depois caminha na água e volta à praia.
Agora, pisa na areia.
“E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago.
Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.”
Felicidade Clandestina [Clarice Lispector]
Sexta- feira 13
Há 17 anos
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